A OBRA MAIS
INJUSTIÇADA
DE ZACK SNYDER

“Uma jovem é internada
em um hospital psiquiátrico pelo padrasto. Lá, aventura-se em um mundo surreal
para fugir de sua dura realidade. Esta “outra realidade” a leva para guerras
que a garota trava ao lado de suas companheiras de manicômio, a fim de
encontrarem uma saída para toda aquela loucura”
A filmografia de Zack Snyder pode ser intitulada como um
tanto quanto “Pessoal”. Por mais que
grande parte de suas obras(praticamente todas) sejam adaptações de outras
mídias, como as histórias em quadrinhos; seu estilo de escrita e direção tornam
seus projetos extremamente únicos, e utilizam da marca registrada do diretor
norte-americano, a fotografia dark
somada a mundos sombrios e depressivos, que apresentam personagens prestes a se
quebrarem. E assim vimos 300, Watchmen, O
Homem de Aço, Batman vs. Superman…
Todavia, Sucker Punch:
Mundo Surreal foi escrito e dirigido pelo próprio Snyder. Não foi adaptada
de uma obra literária como Watchmen,
ou baseada em um longa antigo como Madrugada
dos Mortos. Sucker Punch é o Snyder mais bruto que você verá hoje, e muito
por conta disso, é a sua obra mais injustiçada.

A responsabilidade de adaptar as histórias em quadrinhos
mais importantes da história da nona arte, Watchmen
e Cavaleiro das Trevas(adaptada em
Batman vs. Superman) é um peso que poucos poderiam carregar, e se Snyder é um
desses poucos, é história para outro texto; porém, apesar de todos os ônus que
estas responsabilidades trazem, elas também trazem pontos atrativos. Divulgação
de importantes estúdios, grandes orçamentos de produção, uma história rica e
que por si só, já está pronta para ser adaptada, além é claro, de que você goste
ou não do trabalho final, certamente você irá correr atrás desse material, o
que gera mais arrecadação e visibilidade para o diretor.
Na contramão, quando você coloca nas telas um projeto
idealizado por você mesmo, torna-se um desafio ainda maior para vende-lo às
grandes massas.
Olhando o copo pelo lado “meio
cheio”, também podemos concluir que apresentar uma obra inteiramente sua,
possui certos atrativos; como a liberdade que você tem para escrever, apagar,
corrigir e reescrever na sua própria visão; sem ter que ouvir milhares de fãs
furiosos nas redes sociais com citações do tipo “Mas nos quadrinhos ele nunca
faria isso!” ou o “o antigo era melhor”.
E nesse ponto, está a grande maioria das críticas negativas
que Snyder sempre recebeu em suas produções. O fato do diretor não dar para
trás, e aceitar a responsabilidade de adaptar projetos audaciosos e extremamente
populares, o tornou o típico “ame ou
odeie” entre os cinéfilos.
Por isso quando ele altera momentos cruciais das histórias
originais, como no polêmico desfecho de Watchmen,
a comoção gerada é extremamente assustadora. E o peso de carregar esta responsabilidade
recai sob os ombros de quem aceitou essa verdadeira “missão suicida”.
As comparações são sempre inevitáveis, e os haters adoram procurar os mínimos
detalhes para crucificar os trabalhos de Zack, assim como seus “discípulos”, o
amam enaltecer, seja por sua visão “divina” ou pelos easter-eggs que o diretor tanto gosta de inserir em suas obras.
E talvez por isso, Sucker Punch seja minha obra favorita de
Snyder. Como não há um ponto para compararmos, parece que recebemos o longa de
uma forma mais amistosa, e o próprio diretor, que também assina o roteiro(ao
lado de Steve Shibuya) parece estar mais a vontade em sua “própria área” e
assim, mais confortável para nos apresentar um pouco da loucura que se passa em
sua mente. E ser esse tipo de louco não é ruim, pois como diria Alice, “as melhores pessoas são assim”.
Por falar em Alice, o
próprio Zack Snyder definiu Sucker Punch como um “Alice no País das Maravilhas com metralhadoras!”. Na produção, ele apresenta mundos em guerra, com generosos efeitos visuais, e com
batalhas de tirar o fôlego. Tudo isso protagonizado por belas mulheres em
roupas provocantes. Parece ser o filme dos sonhos de qualquer adolescente
virando realidade.
E goste você ou não desse “excesso” de corpos à mostra,
durante os 110 minutos de sua produção, Snyder jamais apresenta mulheres como
objetos; o que ele apresenta são quão cruéis são aqueles que utilizam delas
apenas para divertimento. Estes sim, são os grandes vilões da história, e não o
diretor.
Aliás, praticamente todos os personagens masculinos da
produção são mostrados como machistas, maléficos, e capazes de atos repugnantes
como o estupro e o feminicídio. E em nenhum momento Snyder os coloca em um
pedestal querendo os transformar em exemplos de ser humano.

Como destaque temos a atuação detestável de tão perfeita de
Oscar Issac, que dá vida ao personagem Blue; o terror das moças residentes do Manicômio-Casa
de Dança da Madame Gorski, esta interpretada pela sempre correta e exuberante
Carla Gugino.
A protagonista da trama BabyDoll é vivida pela atriz Emily
Browning, que curiosamente estava pensando em desistir da carreira de atriz,
até Snyder a convidar para estrelar a produção; e mesmo que a moça não dê um
show de atuação, em nenhum momento ela compromete.
Sucker Punch passa
longe de ser um filme perfeito, e suas grandes batalhas se tornam repetitivas
com o passar da produção, e seus múltiplos finais possíveis parecem ter
confundido a cabeça de Snyder, que acabou por escolher, um desfecho mediano
para suas personagens. Não é o soco no estômago que foi o final de O Homem de Aço, nem o decepcionante
final de Batman vs Superman. Mas
mesmo com esses defeitos, possui menos erros de roteiro do que os dois exemplares
citados anteriormente.
O filme ainda conta com uma participação mais que especial
de Scott Glenn, sendo uma espécie de Mestre Yoda de BabyDoll. O ator, muito famoso
por produções das décadas de 80 e 90 se torna uma peças centrais da história, e
fator crucial para compreendermos o que o diretor quis apresentar na obra. A
forma com que cada uma irá interpretar a cena final de Scott com uma das
protagonistas do filme, vai influenciar diretamente no entender que o roteiro
fará em sua mente.
Sweet Pea(Abbie Cornish), Rocket(Jena Malone), Blondie(Vanessa Hudgens) e Amber(Jamie Chung) são as companheiras de BabyDoll tanto na Realidade da Loucura, como na Loucura da Realidade. A trama pouco se aprofunda no passado das moças, e em alguns casos, não temos informação alguma. Entretanto, isso não as torna menos interessantes, e provavelmente se tivéssemos alguma informação na trama, ela teria sido passada de forma tão superficial, que talvez seja melhor que o mistério continue no ar.
As coreografias de lutas estão impecáveis, e o famoso slow motion Snydesco está presente, deixando as cenas dignas de serem colocadas em um quadro. A trilha sonora também é um show a parte e nos joga completamente em meio as cenas de ação, com destaque para o cover de Sweet Dreams, tocado na cena inicial do filme. Falem o que quiser de Zack Snyder, não se pode negar o cuidado que o diretor tem para arquitetar os ambientes ideais para seus personagens brilharem. Luz e som em prefeita sincronia não só agradam os críticos mais exigentes, como o público mais casual. Afinal, quem nunca se lembrou de um filme, ao ouvir determinada música em uma estação de rádio ou no spotify?
MAS AFINAL, O QUE SIGINIFICA "SUCKER PUNCH"?
Na língua inglesa, Sucker
Punch pode ser definido como um soco
de otário, também conhecido como um golpe de covarde; é um soco feito sem
aviso prévio, que não permite tempo para preparação ou defesa por parte do
destinatário. O termo é geralmente reservado para situações em que a forma como
o soco foi entregue é considerada injusta ou antiética.
Esta injustiça pode ser traduzida como o momento escroto e
desumano que o padrasto de BabyDoll a trancafia em um manicômio, ou até mesmo
como o gatilho “covarde” de BabyDoll que em um momento de pânico não raciocina
de forma correta e mata a pessoa errada por engano.
Ou até mesmo podemos definir o nome do longa como a sensação
que temos em vários momentos da produção, onde as mortes são verdadeiros socos
em nosso estômago, nos deixando com uma sensação de raiva e até mesmo, vergonha.

Sucker Punch é um longa cercado de interpretações
e teorias, que somente ao assisti-lo mais de uma vez, você terá uma opinião
concreta sobre ele(ou talvez nem assim!). Porém, deve ser presença obrigatória
na cinelist de qualquer fã de Zack Snyder, de filmes com grandes cenas de luta,
ou de qualquer um que goste de abrir a mente a todos os caminhos que a Sétima
Arte.
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