Todo ano somos bombardeados por projetos internacionais, principalmente estadunidenses, que exploram a vida de serial killers e suas vítimas. Nomes como Ted Bundy, Golden State Killer e Assassino do Zodíaco são amplamente conhecidos, e fazem tão parte do nosso cotidiano, como um outro famoso qualquer. Essas espécie “familiaridade” com que tratamos estes criminosos, por ora, pode nos assustar; mas para aqueles que nutrem uma paixão pelo gênero do true crime, essas leituras e releituras sobre essas figuras extremamente impactantes são sempre bem-vindas.
No Brasil, a cultura dos serial killers também existe,
embora não tão diversa, quanto nos Estados Unidos. Mas por conta de nosso lado
mais emotivo, com certeza o que mais nos
choca nos crimes nacionais são quando são cometidos por alguém próximo da
vítima. Seja um pai assassinando uma filha(como
no caso Isabella Nardoni), uma esposa que assassina o marido(como o Caso Eliza Matsunaga), e o exemplar
que iremos abordar hoje, o Caso Suzane Von Richthofen.
Em 2002, o casal de namorados Suzane Von Richthofen(Carla Diaz) e Daniel Cravinhos(Leonardo Bittencourt) declararam-se culpados pelo assassinato dos pais de Suzane. Ao longo do julgamento deles, ambos deram versões diferentes sobre o crime que, na época, teve grande repercussão e gerou indignação na população. No filme A Menina que Matou os Pais a narrativa é baseada no olhar de Daniel Cravinhos; e em O Menino que Matou Meus Pais, é Suzane que serve de narradora.
Maurício Eça(sim, ele mesmo, o diretor dos filmes de
Carrossel) entrega uma direção dinâmica e que extrai o melhor do roteiro de
Ilana Casoy e Raphael Montes. E claro que não poderia haver dupla melhor de
roteiristas para esse projeto; Ilana
Casoy é autora da mais completa biografia do Caso Richthofen, além de
ser especialista em investigação forense, e autora do projeto Bom dia, Verônica, livro que já foi
adaptado para série na plataforma da Netflix.
Com um projeto que tenta agradar gregos e troianos, “a verdade”
de Daniel Cravinhos e “a verdade” de Suzane Von Richthofen é abordada com cenas
que se completam, e ao mesmo tempo, se distinguem. A versão de Daniel, coloca Suzane
como uma jovem doce, mas que foi se corrompendo com o tempo, em decorrer de
problemas familiares, que a levaram a arquitetar todo o assassinato de seus
pais; “induzindo” Daniel e seu irmão Cristian, a executarem o ato.
O jeito dissimulado e psicótico de Suzane é muito bem retratado
por Carla, e seja na versão de Suzane ou de Daniel; a loira manda muito bem.
Destaque para as cenas em que a atriz descobre a traição de seu pai, na versão
narrada por Daniel; e nas cenas do julgamento, na versão de Suzane. Créditos
também para o diretor Maurício Eça, que extraiu o melhor de sua protagonista. A
transformação de menina doce em criminosa fria e calculista é muito bem
articulada e caracterizada, com uma ótima direção de fotografia e maquiagem.
Um personagem-chave, ou melhor, que poderia ser um
personagem-chave é Andreas, o irmão de Suzane, e que poderia ter um grande
papel na trama, mas que é facilmente deixado de lado, e muito possivelmente por
respeito a toda vida pessoal do rapaz na vida real. Perguntas e mais perguntas
sobre o dia mais traumatizante de sua vida certamente não seriam das mais
bem-vindas para Andreas.
Certamente, um documentário que detalhasse o caso minuciosamente, e até mesmo, na perspectiva dupla que vimos nestes exemplares, seria extremamente mais completo que dois projetos de longas-metragens como foi feito. Entretanto, a forma encontrada não é ruim, e entrega algo diferente do que estamos acostumados a assistir, até mesmo para um projeto de true crime.
A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais são bons projetos nacionais, e que retratam com muito cuidado duas versões de uma mesma história, com direito a contradições, concordâncias e muita brutalidade. Mais um bom entretenimento, e que já está disponível na plataforma do Amazon Prime Video!



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